top of page
ELA.png

sépalas anteras estigma

hálito de polpa molhada

pulsa contra meu dedo

ainda assim

carne apenas não basta

© Copyright 15/03/2026
A Falecida.png

LIlian Amaral

Ela sempre repetia: “Reze para morrer primeiro. Pois, se eu for antes e você se casar novamente, retornarei do além para puxar seus pés”. Desacreditei, até ri. Mas agora estou aqui, com esta cãibra na perna. E ninguém para puxar meus pés.

© Copyright 09/03/2026
A CIDADE DOS TOCOS.png

As pequenas folhas que, no outono, caem como confetes e entopem as calhas são um problema.

As flores amarelas que, no inverno, caem e forram a calçada como um tapete da realeza são um problema.

As vagens com sementes que, na primavera, caem estalando, como se alguém quebrasse nozes, são um problema.

Então, corta-se o problema. Afinal, de que vale uma vida se ela é “o problema”?

Porém, quando o ar fica seco e os ventos do outono, sem barreiras, levam os telhados, isso é um problema?

Quando, no inverno, os pássaros abandonam a cidade, sem abrigo e sem alimento, isso é um problema?

Quando, na primavera, as chuvas chegam com violência ao solo nu e inundam a cidade, isso é um problema?

Foi assim que minha cidade ficou conhecida como a cidade dos tocos.

Árvores trazem problemas.

O corte, muito mais.

© Copyright 26/02/2026
DESENLACE.png

Lilian Amaral

Da esquina, um homem vigia.

Da janela, as vizinhas espiam.

Dois pombos observam do muro.

O gato, do portão, fita a igreja.

 

É noiva querendo escapar.

É presságio turvo no ar.

É noivo plantado no altar.

 

O homem acelera a moto.

A moto freia diante da escadaria.

As vizinhas atiçam os convidados.

 

A noiva é rápida.

Com o gato, escala o telhado.

Com as pombas, alça seu voo.

Sequestra o noivo sem deixar rastros no ar.

 

Da garupa, as vizinhas acenam.

© Copyright 22/02/2026
Pra dizer.png

*

Lilian Amaral

De onde estou, vejo meu marido.

 

Moço bonito,

boca pequena, sorriso imenso.

Olhos curiosos, às vezes raivosos,

quase sempre carinhosos.

 

Olhos que transbordam

ao reencontrar um amigo,

ao presenciar injustiças,

ao assistir final de novela.

Ao ver o Palmeiras campeão.

 

Porque é meu amor,

caminha comigo.

Juntos rimos.

Comigo se deita.

Juntos fazemos a ceia

até a carne estremecer.

 

De onde estou vejo meu marido,

dentro do peito,

parte de mim.

*Feliz aniversário, Amaury!!!

© Copyright 11/02/2026
Dolorosamente Nu (1).png

Lilian Amaral

Bastou um encontrão. Um esbarrão atropelado com a quina da escrivaninha. Arroxeou. Pretejou. Em cinco dias me abandonou. Partiu sem levar consigo a amargura do meu sofrimento. Foi um verão desparceirado aquele.  Eu nu, enquanto meus quatro companheiros se exibiam de esmalte vermelho. 

© Copyright 07/02/2026
Criminosa, eu.png

 

Lilian Amaral

 

 

Nem verdade, nem mentira. Apenas uma historinha incapaz de convencer o júri. Até que, entre uma palavra e outra, no final de uma frase, uma borboleta voou da minha boca.

Azul, azul, fresca e bela como uma verdade deve ser.

O juiz mandou que eu continuasse.  Para minha salvação, borboletas amarelas, vermelhas e brancas escaparam por entre os dentes, pelo canto da boca, por debaixo da língua.

Encantado com a elegância das palavras, o júri via meu álibi ganhar asas.

Então o promotor se ergueu da cadeira. Com um golpe rápido da redinha, capturou uma das borboletas.

Atento, examinou-a.

Algo peludo, pegajoso e malcheiroso se debatia.

© Copyright 01/02/2026
NOSSA HISTORIA (Site).png

 

Lilian Amaral

 

 

Sob o redemoinho do tempo, as lembranças do que fomos se mesclam aos meus desejos. Imagino o que poderíamos ter sido. O intolerável, deixo ao esquecimento. Verdades? Se não a mim, a quem importam? Que o vento leve as feridas. Permaneçam apenas as memórias — aquelas que foram, verdadeiramente, vida".

© Copyright 27/01/2026
DOIS EM UM.png

Lilian Amaral

Modestamente, não criei um método. O que houve foi um sonho.

Sonhei com uma ideia maluca e, ao acordar, em vez de esquecê-la, resolvi executá-la: realizei-me sendo Adélia e Rubens ao mesmo tempo.

O procedimento é simples. E, por isso mesmo, surpreende não ter sido tentado antes. Vou descrevê-lo, caso você também queira pôr em prática por sua conta e risco.

Comecei vestindo a frente de um sutiã e de uma calcinha de renda vermelha. As costas ficaram a cargo de uma camisa social e uma calça igualmente clássica. Rubens é tradicional.

Sobre o conjunto, acrescentei a frente de um robe de cetim vermelho. Adélia não abre mão da sensualidade. Na parte traseira, um sobretudo de lã cinza, próprio para reuniões importantes ou funerais inesperados.

Para finalizar o figurino: nos pés, sandálias douradas de salto agulha na frente. Adélia é fatal. Atrás, mocassins pretos de verniz, bem lustrados. Rubens odeia desleixo.

Na cabeça, uma peruca de cachos louros na frente e um chapéu de veludo preto na nuca.

Pronto o figurino, dirigi-me ao porto.

Subi pela passarela, caminhei até o fim do cais e me posicionei na pontinha do píer. Abri o robe com naturalidade. Acenei para o primeiro navio que passou.

Os marinheiros responderam imediatamente ao aceno de Adélia com empolgação, gritos e assobios.

Enquanto isso, às minhas costas, os estivadores que trabalhavam no cais viam Rubens e concluíam: “Este senhor deve ser alguém importante, pois todos daquele navio estão com entusiasmo a cumprimentá-lo.” E passaram a me ovacionar também.

Antes que o navio atracasse e os sedentos marinheiros encontrassem Adélia, ou que um estivador mais ambicioso oferecesse seus préstimos a Rubens, dei meia-volta e retornei rapidamente ao meu apartamento.

Tranquei a porta. Vesti o pijama. Entrei debaixo das cobertas.

Fechei bem os olhos.

Voltei a sonhar.

No cais restaram apenas um salto agulha dourado e um solado preto de mocassim, encontrados por um

pesca-dor, que entende bem o que é ser dois em um.

© Copyright 19/01/2026
Migrantes.png

Lilian Amaral

 

O banco está no limite.

 

Entre a mata descuidada e a avenida que liga nosso bairro operário ao centro, da calçada sem revestimento, o concreto armado se levanta, curvando-se como uma onda de três metros. O azul-celeste termina numa inclinação caiada, espuma branca. O assento, também azul, forma uma marola suspensa a meio metro do chão.

A onda solitária permanece congelada, em contraste com a rispidez do trânsito, na periferia de uma cidade que não conhece o mar. Onda-banco. Banco-ponto de ônibus, servil a trabalhadores.

É pena que, ao fim desta noite, rapazes de grife com carros reluzentes virão, munidos de ódio, para derrubar nossa onda.

© Copyright 15/01/2026
GARANTIA DE FÁBRICA.png

Gastou os restos da aposentadoria num frasco de Rullgol, o hidratante da atriz de novela.  No comercial, ela amanhecia com a pele vincada e desmoronada e, após besuntar-se com o creme, renascia jovial e sorridente.

Ela usou por uma semana, dez, vinte dias. No trigésimo dia, com um brilho estranho, a densidade da pele já não parecia viço: tornara-se carapaça. O casulo amoleceu. Com um estalo úmido, partiu-se, revelando a ponta de uma asa, translúcida e trêmula. Depois, a outra, esticando-se em toda sua dimensão.

Quando libertou ambas as asas, o que restou do casulo caiu ao chão. Ainda presa à vidraça da janela, ela experimentou o primitivo estremecer das asas. Com mais confiança, ensaiou um abano mais atrevido. Então, num impulso fresco, enfim renascida, alçou seu primeiro voo.

As asas vacilaram, hesitantes, antes de desaparecerem no céu. Lá embaixo, sobre a mesa, o frasco de Rullgol permanecia aberto, como se ainda aguardasse algo ou alguém.

© Copyright 08/01/2026
O TEMPO DO TEMPO (1).png

Lilian Amaral

Seis e cinquenta e cinco; seis e cinquenta; seis e quarenta e cinco; seis e quarenta... Não importava o quanto ela adiantasse o timer, ele sempre despertava cinco minutos atrasado. E ela, sempre cinco minutos atrasada: para o trabalho, o almoço, a faculdade, o encontro com os amigos e o namorado.

À noite, os pesadelos a perseguiam: o chefe a demitindo, a placa do refeitório anunciando o fim das refeições, a bronca do professor diante da classe, o namorado irritado se engraçando com outra. Sempre atormentada. Sempre atrasada. Uma vida atropelada pelo tempo.

Muitos anos depois, quando a aposentadoria finalmente chegou, não importava o horário programado, o despertador sempre adiantava cinco, dez, quinze minutos... Ela, então,  virava para o outro lado, suspirava prazerosa com o tempo do tempo e com o tanto de tempo pra sonhar.

© Copyright 01/01/2026

BLOG EM MANUTENÇÃO

O blog Agulhando Contos, com 46 meses de vida, já publicou 186 contos!

Para comemorar esta conquista, o blog ganhará novas páginas:

- As publicações de (e em) livros ganharão uma página.

- Os "teasers" (vídeos de divulgação) também ganharão espaço.

Deixe aqui seu e-mail e receba um novo conto 

Me siga em:

  • Instagram
  • Facebook
  • Twitter
  • LinkedIn
  • YouTube

Lilian Amaral

01 de Setembro de 2022

Mairinque  SP  Brasil

* O desenho da ouriço-caicheiro  é  de Altino Lobo e a artefinal  de Lilian Amaral.

bottom of page