
Nos conhecemos na saída de uma matinê.
Éramos jovens. Elizangela saiu impactada do cinema. O filme era sobre uma mulher enterrada viva após um episódio de catalepsia; uma lenda na família dela, onde juravam que aquilo já acontecera à tataravó.
Contei que, quando o assistira pela primeira vez, também me assustara, mas depois de revê-lo tantas vezes naquela semana, até achava graça. Ela não achou graça.
Meses depois, no cartório, quando legalizamos nosso casamento, Elizangela oficializou outro documento: exames obrigatórios em caso de morte súbita, e um celular dentro do caixão. Achei gasto à toa. Mas se era para tranquilizá-la, tudo bem.
Quando Deus quis que Elizangela fosse para junto dele, tratei de pagar um médico para realizar todos os exames, e eu mesmo coloquei o celular junto dela no caixão.
Na madrugada do enterro, o celular vibrou. Sentei na cama. Comecei a calçar os chinelos.
Então, lembrei: eu havia configurado o aparelho para uma única ligação antes que a bateria morresse.
Descalcei os chinelos.

lilian amaral
Amoras nascem em todos os
cantos. Cantam
os sanhaços de barriga
estufada. Estufado
fica o papo do
jenipapo. Jenipapo
maduro exibe um cheiro
doce. Doce
de jenipapo agrada gente de todos os
cantos. Mas os cantos
dos sanhaços são para as
amoras, amoras
que frutificam sob a sombra do
jenipapo — que papo…rs.

Disseram que éramos crianças hiperativas.
— Zombar dos outros era nosso vício.
Disseram que estávamos só brincando.
— Brincávamos, sim, de desafiar os vacilões.
Disseram que não entendíamos o perigo.
— Conhecíamos cada regra do jogo dos copos.
Disseram que nem éramos tão amigos assim.
— Cúmplices, treinamos o embaralhamento. Sabíamos quais copos seriam os nossos e qual ficaria para o trouxa.
Disseram que ficamos em choque, sem entender nada.
— Não viram nossas pantomimas de sarcasmo quando comemoramos o acerto.
Disseram que éramos inocentes, e que o morto provavelmente planejou tudo. Afinal, era lesado, não?
— Omitimos, naturalmente, que roubamos meio copo de soda cáustica do armário de limpeza da escola.

Troquei de lugar, pulverizei fertilizante, cuidei das regas. Ainda assim, ela continuava secando. Minha avó dizia: avenca seca em casa de mulher corneada. Crendice! Decidi trocar o vaso. Que isso? Sob a terra revirada: comprimidos iguais aos da Bella. Olhei para minha fiel companheira. Ela virou o focinho, fingindo que vigiava o gato, enquanto me olhava de soslaio.

Lilian Amaral
Retirou-se da mesa às pressas. Os garfos tilintaram no prato vazio. A faca caiu de ponta no piso.
Na sala de jantar, indagações e suposições ganharam as bocas de alguns e os ouvidos de outros. Na janela, olhos alongavam-se para assistir ao sucedido.
Na rua, o homem, fora de si, catava os pedriscos soltos do asfalto e os enfiava boca adentro.
As línguas empalideceram e calaram-se no interior da casa. Na vizinhança, porém, espalharam-se feito labaredas, iluminando a noite e despertando os curiosos.
Quase sem ar, colei-me ao vidro da janela para apreciar a cena. Lembrei do frasco que escondi entre as blusas de lã. Sorri.
Dentro de mim, o ruído retornava. Comandava. Como aconteceu no preparo do jantar.
Estendi os braços. Os hematomas ainda estavam lá. Não queria recordar, e não recordaria. Lá fora, o mal ladrava sua dor. Dentro de mim, o ruído só crescia.
Abri a janela e expus meus braços. Desejava que ele pudesse me ver. Detive-me com as mãos abertas. Os ouvidos entumecidos. Os olhos em pleno silêncio. As têmporas pulsando.
Ele se debatia no asfalto. Débil. Curvava-se sobre os joelhos. E vomitava pedras e sangue.
O ruído, já uma pulsação, agora respirava.
Vi a faca ainda no chão. As pontas agudas do garfo.
Voltei para o meu quarto. Remexi minha gaveta em busca do frasco.
Ele não estava lá.

Baleias nadam por todos os cômodos.
Passado e presente boiando na mente.
Jubartes escuras, intermitentes.
Nas águas geladas, bailarinas abissais.
Suaves, encantadoras. Devoradoras.
Penso no corpo, que sufoco!
Só eu sei o peso que me transborda.
Lembranças perversas, sonhos, pesadelos.
Tombam no mar feito um capricho,
sufocam certezas
na profusão das marolas.
O sol, no fim do horizonte,
com sua sabedoria ancorada,
não revela como será
nosso último amanhecer.

Pivete
apaixonado torcedor
assiste ao jogo de cima do muro
final de campeonato
seu time perdeu o primeiro jogo
um gol de diferença
o novo jogo está zero a zero
com mais um gol
o jogo seguirá para os pênaltis
ele reza para todos os santos
mistura tudo: santo católico e os do terreiro
o que importa
naquele último minuto do segundo tempo
é um golzinho
nos pênaltis seu time se garante!
o time campeão
ele também será campeão
pelo menos uma vez na vida vencedor
o centroavante pega a bola
em um passe perfeito
lança no pé do atacante
que corre para a pequena área
dribla um
dribla dois
o goleiro está adiantado
a dois metros do gol
frente à rede
chuta com força
ele vibra
a certeza do gol
porém
a chuteira se solta do pé do jogador
segue a bola
desequilibra o lance
a bola cai
frente à linha do gol
do lado de fora
do alto do muro
ele perde
o chão.

Sonhei que de uma cicatriz no céu sangrava estrelas cadentes.
Acordei e lembrei que eram meus dentes que, amolecidos, pareciam se desprender da gengiva inflamada.
O efeito da anestesia havia passado. Eu havia acordado. Mas o dentista ainda escarafunchava a carne viva do meu céu da boca para arrancar os espinhos.
Lembrei-me do aroma intenso, adocicado; da polpa amarela e untuosa; do sabor que lembrava uma mistura de manga verde e cajá. Do pequi. E da dor.
Já era tarde quando o feirante gritou para que eu não mordesse a fruta com força. Dezenas, talvez centenas, com certeza, milhares de espinhos cravaram no meu céu da boca.
Retruquei que não era nada. Boca de macho não sente dor, disse à minha mulher. Declarei, muitas vezes, que não precisava de ajuda.
Três dias depois, dez quilos mais magro e com quarenta graus de febre, minha esposa me internou em uma clínica odontológica e prosseguiu nossa viagem de férias sozinha.

Dentro do círculo, busco o centro.
Dentro de mim, as extremidades.
Sou borda que transborda
e retorna sem se romper.
Sugo tudo.
Bato com leite.
Tomo vitamina.
D’mim, nada escapa:
volto ao círculo
pra aninhar
e me encontrar.
Bem no centro.

Começo meu passeio admirando casais de maritacas que cruzam o céu tagarelando. Na grama recém aparada, pardais chapinham insetos indefesos, enquanto joões-de-barro estufam o peito em gorjeios entusiasmados. Canários amarelos, como flores, pontuam a relva em busca da primeira refeição. Na rede da quadra de vôlei, rolinhas aproveitam o sol para, em bicadas rítmicas e preguiçosas, catar o tempo e o piolho.
Sigo distraído. Descuido da caminhada. Não vejo onde piso.
Até sentir amassar algo mole e fedorento.
Assim estreei meu novo par de tênis.
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Lilian Amaral
Um rebanho inteiro transpassa
a toalha da mesa empinando o rabo.
Na sala de jantar, comíamos:
fome pequena,
grande avareza.
Esqueci a falta de apetite.
Esqueci a falta de alimento.
Tudo é falta quando o grande se lambuza.
Novamente, desfila o rebanho faminto na tevê.
É pena sonhar com pássaros sem penas.
Afundo como se estivesse no mar,
vejo o rebanho passar.
Me abrigo
sob a toalha da mesa.
O rabo?
Já dei cabo dele.
Vermelho
[para não pensar em mais nada]
Abriu a mão devagarinho, como se o naco de giz de cera pudesse escapar-lhe. Achei no bolso dos shorts, posso ficar com ele? Não respondi. [Eu] não podia desviar os olhos daquela cera vermelha. [Ele] sorria para seu achado.
Do quintal, chegava até nós o canto de uma cigarra
[como uma promessa]

Lilian Amaral
O fantasma sorriu ao ler o próprio obituário.
Chamavam-no de “falecido”. Mas ali estava ele, numa espreguiçadeira à beira da gigantesca piscina do resort. A matéria descrevia, com certo melodrama, o “acidente”. Havia também menção à jovem esposa, recém-enviuvada, e ao seguro de vida milionário.
Olhou novamente para o recorte de jornal. O papel estava amarelado e começava a esboroar. A espreguiçadeira sob seu corpo também se desfazia. A piscina, outrora azul, estava verde. O sol, que não mais amanhecia.
Tudo tão diferente do dia em que ali chegara, à espera dela.
Tentou levantar-se. O corpo estava rígido. As mãos não obedeciam.
Não soube da prisão da esposa.
Nem da absolvição que viria.

Lilian Amaral
— Conhece a Ana do Adolfo?
— Este é o filho da Ana do Adolfo.
— Entrega para a dona Ana do Adolfo.
— Você sabe quem é, a Ana, a Ana do Adolfo.
Quando o Adolfo se foi ....
Ana ficou apenas Ana.
Até.
Conhecer Carlinhos.

sépalas anteras estigma
hálito de polpa molhada
pulsa contra meu dedo
ainda assim
carne apenas não basta

LIlian Amaral
Ela sempre repetia: “Reze para morrer primeiro. Pois, se eu for antes e você se casar novamente, retornarei do além para puxar seus pés”. Desacreditei, até ri. Mas agora estou aqui, com esta cãibra na perna. E ninguém para puxar meus pés.

As pequenas folhas que, no outono, caem como confetes e entopem as calhas são um problema.
As flores amarelas que, no inverno, caem e forram a calçada como um tapete da realeza são um problema.
As vagens com sementes que, na primavera, caem estalando, como se alguém quebrasse nozes, são um problema.
Então, corta-se o problema. Afinal, de que vale uma vida se ela é “o problema”?
Porém, quando o ar fica seco e os ventos do outono, sem barreiras, levam os telhados, isso é um problema?
Quando, no inverno, os pássaros abandonam a cidade, sem abrigo e sem alimento, isso é um problema?
Quando, na primavera, as chuvas chegam com violência ao solo nu e inundam a cidade, isso é um problema?
Foi assim que minha cidade ficou conhecida como a cidade dos tocos.
Árvores trazem problemas.
O corte, muito mais.

Lilian Amaral
Da esquina, um homem vigia.
Da janela, as vizinhas espiam.
Dois pombos observam do muro.
O gato, do portão, fita a igreja.
É noiva querendo escapar.
É presságio turvo no ar.
É noivo plantado no altar.
O homem acelera a moto.
A moto freia diante da escadaria.
As vizinhas atiçam os convidados.
A noiva é rápida.
Com o gato, escala o telhado.
Com as pombas, alça seu voo.
Sequestra o noivo sem deixar rastros no ar.
Da garupa, as vizinhas acenam.

*
Lilian Amaral
De onde estou, vejo meu marido.
Moço bonito,
boca pequena, sorriso imenso.
Olhos curiosos, às vezes raivosos,
quase sempre carinhosos.
Olhos que transbordam
ao reencontrar um amigo,
ao presenciar injustiças,
ao assistir final de novela.
Ao ver o Palmeiras campeão.
Porque é meu amor,
caminha comigo.
Juntos rimos.
Comigo se deita.
Juntos fazemos a ceia
até a carne estremecer.
De onde estou vejo meu marido,
dentro do peito,
parte de mim.
*Feliz aniversário, Amaury!!!
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Lilian Amaral
Bastou um encontrão. Um esbarrão atropelado com a quina da escrivaninha. Arroxeou. Pretejou. Em cinco dias me abandonou. Partiu sem levar consigo a amargura do meu sofrimento. Foi um verão desparceirado aquele. Eu nu, enquanto meus quatro companheiros se exibiam de esmalte vermelho.

Lilian Amaral
Nem verdade, nem mentira. Apenas uma historinha incapaz de convencer o júri. Até que, entre uma palavra e outra, no final de uma frase, uma borboleta voou da minha boca.
Azul, azul, fresca e bela como uma verdade deve ser.
O juiz mandou que eu continuasse. Para minha salvação, borboletas amarelas, vermelhas e brancas escaparam por entre os dentes, pelo canto da boca, por debaixo da língua.
Encantado com a elegância das palavras, o júri via meu álibi ganhar asas.
Então o promotor se ergueu da cadeira. Com um golpe rápido da redinha, capturou uma das borboletas.
Atento, examinou-a.
Algo peludo, pegajoso e malcheiroso se debatia.
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Lilian Amaral
Sob o redemoinho do tempo, as lembranças do que fomos se mesclam aos meus desejos. Imagino o que poderíamos ter sido. O intolerável, deixo ao esquecimento. Verdades? Se não a mim, a quem importam? Que o vento leve as feridas. Permaneçam apenas as memórias — aquelas que foram, verdadeiramente, vida".

Lilian Amaral
Modestamente, não criei um método. O que houve foi um sonho.
Sonhei com uma ideia maluca e, ao acordar, em vez de esquecê-la, resolvi executá-la: realizei-me sendo Adélia e Rubens ao mesmo tempo.
O procedimento é simples. E, por isso mesmo, surpreende não ter sido tentado antes. Vou descrevê-lo, caso você também queira pôr em prática por sua conta e risco.
Comecei vestindo a frente de um sutiã e de uma calcinha de renda vermelha. As costas ficaram a cargo de uma camisa social e uma calça igualmente clássica. Rubens é tradicional.
Sobre o conjunto, acrescentei a frente de um robe de cetim vermelho. Adélia não abre mão da sensualidade. Na parte traseira, um sobretudo de lã cinza, próprio para reuniões importantes ou funerais inesperados.
Para finalizar o figurino: nos pés, sandálias douradas de salto agulha na frente. Adélia é fatal. Atrás, mocassins pretos de verniz, bem lustrados. Rubens odeia desleixo.
Na cabeça, uma peruca de cachos louros na frente e um chapéu de veludo preto na nuca.
Pronto o figurino, dirigi-me ao porto.
Subi pela passarela, caminhei até o fim do cais e me posicionei na pontinha do píer. Abri o robe com naturalidade. Acenei para o primeiro navio que passou.
Os marinheiros responderam imediatamente ao aceno de Adélia com empolgação, gritos e assobios.
Enquanto isso, às minhas costas, os estivadores que trabalhavam no cais viam Rubens e concluíam: “Este senhor deve ser alguém importante, pois todos daquele navio estão com entusiasmo a cumprimentá-lo.” E passaram a me ovacionar também.
Antes que o navio atracasse e os sedentos marinheiros encontrassem Adélia, ou que um estivador mais ambicioso oferecesse seus préstimos a Rubens, dei meia-volta e retornei rapidamente ao meu apartamento.
Tranquei a porta. Vesti o pijama. Entrei debaixo das cobertas.
Fechei bem os olhos.
Voltei a sonhar.
No cais restaram apenas um salto agulha dourado e um solado preto de mocassim, encontrados por um
pesca-dor, que entende bem o que é ser dois em um.

Lilian Amaral
O banco está no limite.
Entre a mata descuidada e a avenida que liga nosso bairro operário ao centro, da calçada sem revestimento, o concreto armado se levanta, curvando-se como uma onda de três metros. O azul-celeste termina numa inclinação caiada, espuma branca. O assento, também azul, forma uma marola suspensa a meio metro do chão.
A onda solitária permanece congelada, em contraste com a rispidez do trânsito, na periferia de uma cidade que não conhece o mar. Onda-banco. Banco-ponto de ônibus, servil a trabalhadores.
É pena que, ao fim desta noite, rapazes de grife com carros reluzentes virão, munidos de ódio, para derrubar nossa onda.

Gastou os restos da aposentadoria num frasco de Rullgol, o hidratante da atriz de novela. No comercial, ela amanhecia com a pele vincada e desmoronada e, após besuntar-se com o creme, renascia jovial e sorridente.
Ela usou por uma semana, dez, vinte dias. No trigésimo dia, com um brilho estranho, a densidade da pele já não parecia viço: tornara-se carapaça. O casulo amoleceu. Com um estalo úmido, partiu-se, revelando a ponta de uma asa, translúcida e trêmula. Depois, a outra, esticando-se em toda sua dimensão.
Quando libertou ambas as asas, o que restou do casulo caiu ao chão. Ainda presa à vidraça da janela, ela experimentou o primitivo estremecer das asas. Com mais confiança, ensaiou um abano mais atrevido. Então, num impulso fresco, enfim renascida, alçou seu primeiro voo.
As asas vacilaram, hesitantes, antes de desaparecerem no céu. Lá embaixo, sobre a mesa, o frasco de Rullgol permanecia aberto, como se ainda aguardasse algo ou alguém.
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Lilian Amaral
Seis e cinquenta e cinco; seis e cinquenta; seis e quarenta e cinco; seis e quarenta... Não importava o quanto ela adiantasse o timer, ele sempre despertava cinco minutos atrasado. E ela, sempre cinco minutos atrasada: para o trabalho, o almoço, a faculdade, o encontro com os amigos e o namorado.
À noite, os pesadelos a perseguiam: o chefe a demitindo, a placa do refeitório anunciando o fim das refeições, a bronca do professor diante da classe, o namorado irritado se engraçando com outra. Sempre atormentada. Sempre atrasada. Uma vida atropelada pelo tempo.
Muitos anos depois, quando a aposentadoria finalmente chegou, não importava o horário programado, o despertador sempre adiantava cinco, dez, quinze minutos... Ela, então, virava para o outro lado, suspirava prazerosa com o tempo do tempo e com o tanto de tempo pra sonhar.

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