top of page
NOSSA HISTORIA (Site).png

 

Lilian Amaral

 

 

Sob o redemoinho do tempo, as lembranças do que fomos se mesclam aos meus desejos. Imagino o que poderíamos ter sido. O intolerável, deixo ao esquecimento. Verdades? Se não a mim, a quem importam? Que o vento leve as feridas. Permaneçam apenas as memórias — aquelas que foram, verdadeiramente, vida".

© Copyright 27/01/2026
DOIS EM UM.png

Lilian Amaral

Modestamente, não criei um método. O que houve foi um sonho.

Sonhei com uma ideia maluca e, ao acordar, em vez de esquecê-la, resolvi executá-la: realizei-me sendo Adélia e Rubens ao mesmo tempo.

O procedimento é simples. E, por isso mesmo, surpreende não ter sido tentado antes. Vou descrevê-lo, caso você também queira pôr em prática por sua conta e risco.

Comecei vestindo a frente de um sutiã e de uma calcinha de renda vermelha. As costas ficaram a cargo de uma camisa social e uma calça igualmente clássica. Rubens é tradicional.

Sobre o conjunto, acrescentei a frente de um robe de cetim vermelho. Adélia não abre mão da sensualidade. Na parte traseira, um sobretudo de lã cinza, próprio para reuniões importantes ou funerais inesperados.

Para finalizar o figurino: nos pés, sandálias douradas de salto agulha na frente. Adélia é fatal. Atrás, mocassins pretos de verniz, bem lustrados. Rubens odeia desleixo.

Na cabeça, uma peruca de cachos louros na frente e um chapéu de veludo preto na nuca.

Pronto o figurino, dirigi-me ao porto.

Subi pela passarela, caminhei até o fim do cais e me posicionei na pontinha do píer. Abri o robe com naturalidade. Acenei para o primeiro navio que passou.

Os marinheiros responderam imediatamente ao aceno de Adélia com empolgação, gritos e assobios.

Enquanto isso, às minhas costas, os estivadores que trabalhavam no cais viam Rubens e concluíam: “Este senhor deve ser alguém importante, pois todos daquele navio estão com entusiasmo a cumprimentá-lo.” E passaram a me ovacionar também.

Antes que o navio atracasse e os sedentos marinheiros encontrassem Adélia, ou que um estivador mais ambicioso oferecesse seus préstimos a Rubens, dei meia-volta e retornei rapidamente ao meu apartamento.

Tranquei a porta. Vesti o pijama. Entrei debaixo das cobertas.

Fechei bem os olhos.

Voltei a sonhar.

No cais restaram apenas um salto agulha dourado e um solado preto de mocassim, encontrados por um

pesca-dor, que entende bem o que é ser dois em um.

© Copyright 19/01/2026
Migrantes.png

Lilian Amaral

 

O banco está no limite.

 

Entre a mata descuidada e a avenida que liga nosso bairro operário ao centro, da calçada sem revestimento, o concreto armado se levanta, curvando-se como uma onda de três metros. O azul-celeste termina numa inclinação caiada, espuma branca. O assento, também azul, forma uma marola suspensa a meio metro do chão.

A onda solitária permanece congelada, em contraste com a rispidez do trânsito, na periferia de uma cidade que não conhece o mar. Onda-banco. Banco-ponto de ônibus, servil a trabalhadores.

É pena que, ao fim desta noite, rapazes de grife com carros reluzentes virão, munidos de ódio, para derrubar nossa onda.

© Copyright 15/01/2026
GARANTIA DE FÁBRICA.png

Gastou os restos da aposentadoria num frasco de Rullgol, o hidratante da atriz de novela.  No comercial, ela amanhecia com a pele vincada e desmoronada e, após besuntar-se com o creme, renascia jovial e sorridente.

Ela usou por uma semana, dez, vinte dias. No trigésimo dia, com um brilho estranho, a densidade da pele já não parecia viço: tornara-se carapaça. O casulo amoleceu. Com um estalo úmido, partiu-se, revelando a ponta de uma asa, translúcida e trêmula. Depois, a outra, esticando-se em toda sua dimensão.

Quando libertou ambas as asas, o que restou do casulo caiu ao chão. Ainda presa à vidraça da janela, ela experimentou o primitivo estremecer das asas. Com mais confiança, ensaiou um abano mais atrevido. Então, num impulso fresco, enfim renascida, alçou seu primeiro voo.

As asas vacilaram, hesitantes, antes de desaparecerem no céu. Lá embaixo, sobre a mesa, o frasco de Rullgol permanecia aberto, como se ainda aguardasse algo ou alguém.

© Copyright 08/01/2026
O TEMPO DO TEMPO (1).png

Lilian Amaral

Seis e cinquenta e cinco; seis e cinquenta; seis e quarenta e cinco; seis e quarenta... Não importava o quanto ela adiantasse o timer, ele sempre despertava cinco minutos atrasado. E ela, sempre cinco minutos atrasada: para o trabalho, o almoço, a faculdade, o encontro com os amigos e o namorado.

À noite, os pesadelos a perseguiam: o chefe a demitindo, a placa do refeitório anunciando o fim das refeições, a bronca do professor diante da classe, o namorado irritado se engraçando com outra. Sempre atormentada. Sempre atrasada. Uma vida atropelada pelo tempo.

Muitos anos depois, quando a aposentadoria finalmente chegou, não importava o horário programado, o despertador sempre adiantava cinco, dez, quinze minutos... Ela, então,  virava para o outro lado, suspirava prazerosa com o tempo do tempo e com o tanto de tempo pra sonhar.

© Copyright 01/01/2026

BLOG EM MANUTENÇÃO

O blog Agulhando Contos, com 44 meses de vida, já publicou 178 contos!

Para comemorar esta conquista, o blog ganhará novas páginas:

- As publicações de (e em) livros ganharão uma página.

- Os "teasers" (vídeos de divulgação) também ganharão espaço.

Deixe aqui seu e-mail e receba um novo conto 

Me siga em:

  • Instagram
  • Facebook
  • Twitter
  • LinkedIn
  • YouTube

Lilian Amaral

01 de Setembro de 2022

Mairinque  SP  Brasil

* O desenho da ouriço-caicheiro  é  de Altino Lobo e a artefinal  de Lilian Amaral.

bottom of page