
O pai dos burros foi o grande ganhador da "Vega Sena" naquele Natal, arrebatando uma saca de “milhões”. Não satisfeitos com o resultado, os apostadores inventaram uma nova aposta: agora, o dinheiro estava em quanto tempo o animal levaria para devorar sua fortuna.
Infelizmente para os jogadores, não houve palpite vencedor. O burro, que todos julgavam estar esfomeado, dada a situação precária de seu estábulo, abocanhou apenas três dentadas dos "milhões" do saco. Em seguida, relinchou satisfeito, chamando suas crias e os outros animais do sítio para compartilhar aquele bom milho.
Julgando o pai dos burros como "o mais burro de todos os burros", os jogadores partiram zombando da incalculável estupidez do animal. Exaltados em meio ao palavrório ofensivo, esqueceram de pedir ao dono a devolução do dinheiro das apostas.
O sitiante, dono do burro, muito sabiamente aplicou o capital esquecido na compra de mais alimento para a jumentada. O criadouro triplicou em quantidade e qualidade em apenas um ano, garantindo à família do homem um Natal seguinte muito abastado.
Grato pela generosidade de seu reprodutor, o sitiante presenteou o pai dos burros e sua prole com um celeiro maior, montes de feno fresco para o descanso e uma cocheira sempre repleta de “milhões”, para que se fartassem a qualquer hora do dia.
Naquele sítio, ao menos, o Natal passou a ser celebrado como deve ser: com tudo repartido e ninguém passando fome.

lilian amaral
Cinza, azuis, verdes, multicores. Sabiás, sanhaços, saíras. Todos “presentes de Deus”, dizia minha dona, Nelzí, encantada em observá-los por uma fresta da janela da cozinha, como quem observa anjos pousando no quintal.
Todas as manhãs, antes mesmo de preparar minha tigela de ração com iscas de frango cozido, ela pendurava nos galhos mais baixos de um pequeno limoeiro nacos de banana-nanica, mamão e grossas rodelas de laranja. Tudo para alimentar aquele bando colorido que vinha encher a pança.
Ariscos, éramos obrigados a observá-los escondidos. Bastava um de nós pôr os pés ou as patas no quintal que as aves mal-agradecidas desapareciam em voo rasante.
Meu rabo parava de abanar no mesmo instante em que eu ouvia a bronca: “Bella, já pra dentro! Você está atrapalhando o café da manhã dos pequenos presentinhos,” “Bella, não corra atrás dos passarinhos”, “Bella, entre já! Você tá assustando os menininhos”. Então, só me restava voltar para meu tapetinho no canto da cozinha e observar a mulher se encantar com os "empenados" se banqueteando com as frutas.
Certo dia, precisamente uma semana antes do Natal, minha dona recebeu um telefonema da mãe para combinarem as festividades. Era bem a hora do banquete das aves. Entretida com a conversa e com o planejamento para a grande festa, ela deixou a janela, esquecendo-se dos pássaros. Eu, no entanto, não me esqueci.
Sorrateira, me esgueirei por trás das moitas de maria-sem-vergonha até me aproximar de um dos galhos do limoeiro. Dei o bote. Um repentino bater de asas e, de primeira, abocanhei um azulzinho.
Não mordi e nem engoli. Um cheiro quente tomou minha boca e subiu por minhas narinas, imaginei ser Deus escapando devagarinho. Prendi a respiração e apenas mantive o “empenado” ali, dentro da boca, até que, sem ar, ele se acalmasse e parasse com o bater de asas e a piação.
Porém, a algazarra da ave já havia alertado Nelzí. Minha dona me encontrou deitada no gramado, com o focinho rente à terra e as patas dianteiras em posição de prece. Entre as almofadinhas das minhas patas estava o corpinho do minúsculo "presentinho de Deus", sem nenhum machucado, mas também sem vida. Apenas um lânguido chumaço de penas azuis com o biquinho calado.
Foram muitos os gritos, xingamentos e ameaças. Também foram muitas as lágrimas, enquanto o sanhaço era enterrado ao lado de uma roseira. Fiquei de castigo a manhã toda em meu tapetinho e sem meu pratinho de ração.
No dia seguinte, inebriada pelo espírito natalino e pela tradição de perdão, minha dona já havia desculpado meu crime e eu já havia recuperado meu status de sua melhor companheira e as regalias rotineiras.
Contudo, três dias depois, exatamente na véspera de Natal, comecei a sentir um certo engasgo, um incômodo na garganta. Pensei ser remorso, embora não sentisse nenhum arrependimento. Algo entalado crescia e crescia em meu pescoço, me sufocando a ponto de eu ter crises de tosse com ânsia. Não consegui comer nem beber.
Preocupada, minha dona já estava marcando consulta no veterinário quando, em um desses terríveis acessos de tosse e ânsia, coloquei boca afora três pequenos ovos, mornos, delicados, da cor creme com manchas marrons.
Presentinhos de Deus. Presentinhos de Bella.

Quando o médico recomendou que ela reforçasse as refeições do marido com fígado e verduras escuras, pois o pálido sujeito estava anêmico, ela retrucou explicando que o esposo tinha o paladar delicado e jamais comeria esse tipo de alimento.
O doutor, então, orientou que ela agisse como as mães de crianças pequenas: picando bem ou batendo tudo no liquidificador e acrescentando disfarçadamente os ingredientes benéficos aos pratos prediletos do paciente.
Ela assim fez. Misturou o fígado de rato e com as folhas verdes do comigo-ninguém-pode, camuflando-os nas refeições do marido.
Quando o médico disse que o cônjuge estava com osteoporose e precisava de mais cálcio, ela seguiu a recomendação, acrescentando ossos de morcego bem torrados e triturados aos pratos.
Depois, quando foi orientada a incluir mais fibras, escondeu porções de mancenilheira (o “fruto proibido”) na salada de frutas. E preparou filés de baiacu quando o médico afirmou que o esposo precisava de mais proteínas.
E assim continuou até o dia em que o doutor anunciou que não havia mais nada a fazer, o amado havia partido desta para melhor.
Ela, então, diante dos familiares do falecido, se derramou em prantos e amaldiçoou os desígnios de Deus.
Depois juntou suas coisas e também partiu.
Ela e o médico.

Descobri na cabeleira do meu vizinho, um inseto espião. Isso mesmo: um minúsculo ser de rabinho encaracolado, lábios listrados e olhar supersônico.
Meu vizinho é um moço apático, que passa os dias e noites deitado na rede da varanda. Seus cabelos são tão longos que pendem da rede e quase tocam o chão. Às vezes, tremulam ao vento; outras, esvoaçam suaves, acompanhando o balanço da lona.
O inseto espião, que habita a cabeleira do sujeito, tal qual um "stalker", me vigia. Está sempre à espreita quando trabalho no jardim, varro o quintal ou estendo a roupa no varal. Continuamente em obstinada e incansável perseguição. Desde então, sinto às vezes uma leve comichão nos meus próprios cachos, como se algo ali também respirasse comigo.
Se essa situação já não fosse bastante desconcertante, fiquei ainda mais atônita no dia em que a mãe do moço (com pretensões opostas às de Dalila ao cortar os cabelos de Sansão) decepou a cabeleira do filho, acreditando que ele ganharia força para abandonar a rede e procurar um emprego.
O moço, claro, não notou a perda das madeixas. Mas alguém notou. E muito.
Quem verdadeiramente sofreu (e ainda sofre) com o fim da cabeleira, foi a pequena moradora dos meus cachos. Isso mesmo: uma minúscula inseta amorosa. Uma menininha doce, de coração partido, que ameaçou suicidar-se ao ver partir, no saco de lixo, não apenas os fios do vizinho, mas seu maior admirador: o espião enroladinho que ela observava de longe, suspirando.

Transbordava. Transbordava. Transbordava.
Tal qual uma caixa d’água cuja boia, exausta de tantos anos de servidão, enfim se rompe. Transbordando.
Transbordou até que a calassem novamente, substituindo a boia, devolvendo-lhe o velho dever de apenas guardar.
Mas o estrago já havia sido feito, a umidade de suas lágrimas, de suas mágoas, deixou um bolor que jamais puderam eliminar.

Os empregos foram há muito extintos. O último empregado de que se tem registro foi em 2030, no Guggenheim Museum, onde um humano exercia a função de estátua viva. Permaneceu no cargo até sua vida perder a função.
Em uma mensagem de despedida, o homem lamentou não ter se submetido à cibernetização e não ter investido em componentes infobiônicos. Pediu desculpas à administração do museu pelas despesas com o consumo de ar, água, traças e baratas.
O mais intrigante nesse caso é que, meses depois de o rapaz se juntar à horda de desempregados banidos do planeta e lançados no sistema solar, sua carne em decomposição (agora autêntica escultura morta) servia de substrato para o nascimento de uma nova espécie de vida: formas microbianas semelhantes às que iniciaram o Big Bang.

Lilian Amaral
Você deve se lembrar quando eu dizia que a boca dela era como uma porta sem tranca; uma porta por onde desfilavam todos os moradores do nosso bairro. Em sua língua dançavam suspiros, olhares, segredos, traições, transgressões e toda sorte de maledicências que ela se empenhava em escancarar, para que ouvidos mexeriqueiros as recolhessem.
Você também deve se lembrar de que eu profetizava que, quando ela passasse desta para pior, seriam necessários dois caixões para acomodá-la: um para o corpo e outro para a boca e a língua, este último lacrado com trancas de aço.
Pois bem, não sei se você se recorda, mas o destino me pregou uma peça. Acabei falecendo antes dela e jamais saberei se minha profecia se cumpriu. Mas de uma coisa tenho certeza: você, você mesmo, certamente se lembra de quem foi que me passou a rasteira em minha própria tumba — atribuindo a mim dois caixões, sendo um deles, ironicamente, lacrado com trancas de aço.

Ele partiu quando chegou. Corpo estendido verticalmente no chão. Olhos sem ver, garganta sem voz. Disse chamar-se Isaias, Malaquias, Marias — ou coisa assim. Não dei trela. Não o chamei pelo nome. Apenas o acarinhei no pescoço e acendi sua vela.

Despertou com um estrondo.
Estava sentado no colchão, os olhos arregalados, grudados na porta do barraco.
No travesseiro ao lado, o rosto da mãe era suave; ela ressonava baixinho.
— Mãee... mããee... — balbuciou.
Sem mover o rosto nem os lábios, ela apenas exalou um “hãããh!”.
— Era um monstro horrível, mãe. Um monstro enorme, com três cabeças, todo preto, peludo, sem olhos, sem nariz, só com um bocão... Uma bocarra cheia de dentes compridos e pontudos, também pretos, que brilhavam como se fossem de metal. E uma língua vermelha, comprida e fina, igual sangue, que ele atirou na nossa direção, explodindo tudo!
A mãe, ainda de olhos fechados, o cenho levemente franzido, resmungou:
— Cala a boca, Miguel. Foi só um sonho. Volte a dormir, que daqui a pouco tenho que pegar a condução.
O menino deitou-se de novo, o coração disparado. As lágrimas insistiam em escorrer pelas bochechas até que, exausto, o sono venceu o medo.
Despertou com o estrondo.
Estava sentado no colchão, os olhos arregalados, grudados na porta do barraco.
Mas não havia mais porta. Três homens vestidos de preto, máscaras, bonés e óculos escuros empunhavam metralhadoras apontadas para eles.
No travesseiro ao lado, o rosto da mãe era rígido, olhos abertos; de um pequeno buraco na testa escorria um fio de sangue.
— Mãee... mããee... — balbuciou.

Descobri os mortos.
Da natureza cantamos. Da natureza rezamos.
Limitei-me a comê-los: puro pó do pó. Jamais me recuperei.
Mel de azeviche, uva adocicada? Mel do campo em amargo descanso.
Dentro de nós apenas chuva. Ácida. Miúda. Quase dolorida.
Então, num repente, estalei os olhos:
– Ressuscitai-vos!

Não importava o quanto eu inclinasse as orelhas ou a força que fizesse para levantar voo: meus pés continuavam presos ao chão. Eu não era Dumbo, o herói fictício, mas apenas um elefante qualquer: pesado demais, grande demais, verdadeiro demais.

Lilian Amaral
Para minha mãe, tudo o que eu fazia nunca era suficientemente bom. Ela adorava me chamar de vaca. Dizia: “Esse chão não está bem limpo, sua vaca!”; “Essa roupa não está bem passada, sua vaca!”; “Essa comida está uma droga, sua vaca!”.
Eu considerava essa nomeação quase elogiosa, até carinhosa. Afinal, as vacas são animais belos e generosos com seus leites, carnes e couros. Além disso, dizem que, para alguns religiosos, elas são até sagradas. Assim, eu continuava a fazer as tarefas da casa com animação.
Até o dia em que, sem maldade alguma, lembrei-a de que toda vaca tem uma mãe.

Lilian Amaral
À exceção dos meus dois tios, meus pais não têm, e nem nunca tiveram, irmãos. Filhos únicos, foram adulados e estragados. Meus tios brotaram das costelas agudas do casal. Eu e minha irmã, embarrigamos os calcanhares de nossa mãe no mês seguinte. Meus avós nos mantiveram em punhos fechados. Não sei se é encanação da mamãe, mas ela jura que meus tios conspiram contra ela. Reclama de sobrepeso na lombar e de ferroadas intermitentes no tronco cabeludo. Meu pai para irritá-la, trata meus tios com ternura, hidrata-os com cremes e os massageia com mel. Eu e minha irmã nos esforçamos para conduzir os passos dessa complicada família para a bonança, mas ninguém nos dá ouvidos, nem bocas temos. Pairamos sempre em solitude, quando não recebemos chutes. Sensatos foram nossos avós, que apenas plantaram a semente e picaram a mula. Escaparam dos punhos secos de mamãe, enquanto papai cuspia-lhes insultos. Resta a mim e a minha irmã somente esperar pelos ossos ásperos de nossos tios, que estes nos deem longas pernas, pois nosso destino nos aguarda além do rio.

Lilian Amaral
Ele sempre dizia que não podia lavar a louça, pois o detergente faria suas mãos caírem. Também não varria o chão: um puxão errado, e lá se iam as mãos. O mesmo valia para arrumar a cama, cuidar das roupas, enxugar o box ou retirar o lixo. Nem mesmo recolher o prato após comer, dizia ser seguro. Guardar roupas e sapatos? Um risco que poderia ser fatal.
Assim viveu, poupando-as, até que, sentindo-se inúteis e depressivas, suas mãos caíram de vez — automutiladas em suicídio.

Lilian Amaral
Sigo na boleia da tua vida.
Mera coadjuvante da tua história.
Remoo e amaldiçoo tão inócuo destino.
Culpo a ti, pois sou covarde.
E porque é mais fácil atribuir ao outro — a ferida.
.png)
Mutante é a imagem refletida pelo espelho: ora gata, ora cobra, ora leoa.
Nunca a mesma e sempre a mesma.
Seja qual o aspecto, nunca o real.
Reflexo do que fui, do que desejei ser, do que acreditei ser.
No espelho me faço; do espelho escapo.
Mudam-se os bichos, permanece a fera.

De cara, percebi: aquele seria um dia perdido. Afinal, acordei com dois pés esquerdos. As meias, felizmente, não foram um problema, mas tive de calçar tênis de cores diferentes, pois não tenho dois pares iguais. Ainda assim, isso foi o de menos. O verdadeiro desafio foi me equilibrar com ambos os pés curvando-se para o mesmo lado.
Dentro de casa, esgueirei-me pelas paredes e apoiei-me nos móveis. Na rua, a caminho do trabalho, desejei ter uma bengala. Nem sempre havia algo em que me apoiar, e atravessar a rua virou um número digno de equilibrista. Concentrei-me ao máximo, tensionei o corpo e inclinei-o levemente para a esquerda, na tentativa de compensar a inclinação natural para a direita.
Quando finalmente cheguei à loja onde trabalho há dez anos como balconista, encontrei as portas de aço sanfonadas ainda abaixadas. Uma folha de sulfite, presa com fita crepe, informava apenas que o estabelecimento havia encerrado suas atividades e que o espaço estava disponível para locação. Nenhuma explicação sobre mudança de endereço, tampouco orientações aos funcionários em relação a seus direitos trabalhistas.
Senti o peso do azar tirar-me ainda mais o equilíbrio. Pensei no aluguel que venceria no dia seguinte, na geladeira quase vazia e nos meus dois pés esquerdos, que agora me impediam até de correr atrás do que era meu por direito.
Um vento forte soprou do leste e me fez perder o frágil equilíbrio que ainda me restava, levando meu corpo a pender para a direita. Só percebi que estava caindo quando os ladrilhos da calçada se aproximaram perigosamente. Mas, antes que o chão me recebesse, senti duas mãos gentis sustentarem meu corpo e ajudarem-me a ficar de pé.
Foi então que me vi frente a frente com dois pés direitos. Pés delicados, com unhas esmaltadas em vermelho vivo, calçando sandálias elegantes de tiras douradas. Entre o solado e a planta dos pés, espreitava discretamente a borda de uma palmilha que corrigia a pisada, equilibrando o andar daquela figura intrigante.
De cara, percebi: aquele não seria um dia totalmente perdido.

Em sua última noite de solidão, ele lavou o chão da igreja, lustrou os ornamentos que emolduravam seu oratório e depositou as flores (que haviam sido deixadas para ele) no altar central, aos pés da Divina Mãe. Nada restou de seus longos anos ali.
Da torre do sino, avistou-a: gigantesca, rosada, resplandecente, empalidecendo o céu violáceo e as múltiplas estrelas.
Em breve, enfim, a Lua sussurraria amorosamente seu nome: Jorge. Montaria em sua garupa, enlaçaria com força sua cintura, sentiria o frio e rijo metal da armadura entre os braços e os seios. Sob seu peso, experimentaria a solidez e o vigor robusto do garanhão. E juntos, cavalgariam entre as constelações.

Aos meus olhos, a claridade anunciava um novo dia. Por entre as pálpebras ainda cerradas, sentia a luz morna que espreitava pelas frestas da veneziana. Era hora de levantar-me e ver no que ia dar o dia. Mas, então lembrei-me que isso não seria possível. Afinal, tive um infarto fulminante naquela madrugada. Agora, só me restava aguardar meu próprio velório e, quem sabe, uma nova vida.

Lilian Amaral
Em sonhos ele ouvia o marulhar das ondas, sentia o arrepio das águas e o amargor do sal.
Em sonhos, ele era peixe, arraia, cavalo-marinho.
Em sonhos atravessava muitos mares.
Contudo, ao despertar, ele continuava confinado à cama.
Confortantes, porém, eram os souvenires que restavam presos nas dobras de suas orelhas: um grão de areia, um fiapo de sargaço ou, com sorte, uma minúscula conchinha.
.png)
Lilian Amaral
Via o ponteiro do relógio correndo no sentido anti-horário.
Via o sol se pondo ao leste.
Via a areia banhando o mar, os peixes voando no céu, os pássaros nadando no mar.
Via a vida do avesso, sempre, teimosamente, do contra.
Até o dia que mais nada viu, cego, desejou ter olhado com mais cor, generoso.

Foi mais uma daquelas noites que fingi dormir para não discutir. Acordei com a aurora, 10 anos depois. Ele ainda continuava dormindo ao meu lado. Chamei seu nome, cutuquei seu ombro, sacudi seu corpo, mas ele se recusou a acordar, preferiu continuar no escuro do que enfrentar o despertar. Sem ter com quem colocar tudo em pratos limpos, me recusei a dormir novamente. Porém, não consegui deixar nossa cama.

Sobre o imaculado lençol branco, ele escreveu com pétalas vermelhas aquela que seria sua última mensagem de amor para ela; e partiu. Um vento invejoso soprou forte pela janela do quarto da amada, levando as pétalas e a mensagem. O tempo passou, a saudade o atravessou e ele voltou; mas não encontrou a moça. Há muito ela seguira o vento.

Quando a mulher abriu a gaveta, encontrou todos os seus segredos organizados em ordem alfabética. De leve, passou a mão sobre eles, como uma carícia de despedida. Em seguida, com cuidado, retirou a gaveta dos trilhos que a sustentavam e despejou tudo (inclusive a própria gaveta) na lixeira do prédio. O desejo de que “Ele” passasse desta para pior foi junto; afinal, já não era mais necessário.

Lilian Amaral
Com mãos pequenas e gordinhas, ganhou da professora o carinhoso apelido de Mãozinha.
Na sala de aula, ela era a mais alta, a mais velha e a mais dedicada. Nascida em uma época em que moças eram educadas apenas para casar, ela tardou a conquistar o privilégio de estudar na cidade vizinha. Só obteve permissão depois que o pai se comoveu ao vê-la, por meses, debruçada sobre apostilas de um curso por correspondência, tentando aprender a ler e escrever.
Anos mais tarde, já casada, suas mãos também ganharam a atenção do marido, que, com ternura, as batizou de Preciosas, por fazerem milagres ao cozinhar, costurar e cuidar da casa e das duas filhas.
Eu consagrei suas mãos de Mágicas. Pois era isso que faziam quando, ao seu lado, eu sentava no sofá e deitava minha cabeça em seu colo para receber um carinho nas costas, um cafuné nos cabelos.
Aos 80 anos, suas mãos já não eram tão belas. A artrose deformou seus dedos, que ficaram rígidos e tortuosos, mas não lhes tirou a delicadeza; nem a magia de me fazer sentir querida.
Hoje, anos depois de minha mãe ter deixado esta vida, suas mãos ainda me fazem companhia. Guardadas nesta caixinha de veludo, continuam pequenas. Sinto o peso delas, os dedos curvados ainda se encaixando perfeitamente entre os meus — mas sem o mesmo calor, nem o mesmo cheiro.

Lilian Amaral
Duas jararacas, quatro aranhas-armadeiras, seis escorpiões-amarelos, oito lacraias, dez vespas e vinte marimbondos. Foi apenas isso que ela conseguiu vomitar ao ler no zap a troca de mensagens do marido com a amante — dentro dela ainda havia muito mais.

Meu edifício tem três elevadores: o tradicional para serviços de mudanças, reformas, limpeza e transporte de pets; outro para pessoas que sabem para onde desejam ou precisam ir e um outro para pessoas que não sabem para onde desejam ou precisam ir. Esse último, sempre se detém entre dois andares e fica ali, por vezes por horas, dias ou anos, até seu ocupante decidir o destino. Há dias em que me pego instigado a entrar nesse, mas temeroso de escolher nunca mais voltar, acabo me decidindo pelo de sempre.

Da varanda ouvi o eco do vaso que se despedaçava reverberar por toda casa vazia. Era a viúva que se desfazia da última lembrança do ex-marido — sua urna mortuária. Saiu apressada, mas sem antes deixar de esfregar bem os sapatos no capacho. Agora o ex teria toda a casa deles só para si até o novo dono a demolir com uma escavadeira.

No primeiro dia ele não abria bandeira alguma e elas, desdenhosas, o olhavam de esguelha. No terceiro dia, ele abria meia bandeira e elas, curiosas, espichavam os olhos com um certo alvoroço. No quinto dia ele expunha amplamente sua bandeira em todo seu esplendor. Colorida. Brilhante. Majestosa. E elas, buliçosas, depenavam-se em disputa para decidir quem seria a primeira. Essa era a rotina amorosa de um pavão premiado quando levado para galar.

Reticente era a memória dela, que bordava em flores seu passado, a fim de resistir ao presente.

Ensinei à minha filha que nunca se deve abrir uma carta sem remetente. Aprendi — quando minha filha adotou meu neto — que às vezes o remente pode ser dispensável.

O noivo disse que só marcaria o dia do casamento depois que ela emagrecesse dez quilos — afinal, queria uma noiva elegante.
Meses depois, voltou a impor a condição de que só marcariam a data se ela perdesse mais vinte quilos, pois ele ainda sentia “dobrinhas de gordura” em sua cintura.
Um ano se passou e ele, insatisfeito, exigiu que ela afinasse mais trinta quilos. Justificou que havia comprado a aliança duas medidas menores, aproveitando uma promoção imperdível.
Dois anos depois, a noiva — que nunca fora obesa — já estava acamada, reduzida a pele e osso. Foi só então que ele decidiu que era hora de marcar o casamento. Contudo, ela morreu minutos antes de ele anunciar a tão desejada data.
Qual não foi a surpresa do noivo quando, uma noite após o velório, em sonho, a finada noiva retornou do além para saber o dia escolhido. Ele, porém, obstinado, se recusou a dizer-lhe.

Sempre que a casa ficava vazia, o combinado era deixar a chave escondida sob o capacho. Naquele final de tarde, quando fui recuperar a chave, só havia um bilhete:
"Esta casa não é mais sua."
Olhei ao redor; o capacho estava novo — sem o desgaste no centro, sem o esfarrapado nas bordas. A porta brilhava com um verniz novo, sem as bolhas e as escamas soltas de sempre. O vaso ao lado do batente agora abrigava uma frondosa palmeirinha, em vez do mandacaru que eu havia matado de sede. As paredes também reluziam com uma pintura nova. O jardim, sem os pedriscos e os tufos de grama amarelada, florescia em rica variedade de espécies e cores.
Aproximei-me da janela. O vidro, límpido — sem a crosta de poeira — deixava ver a cozinha: duas meninas faziam lição à mesa, enquanto um homem e uma mulher preparavam o jantar. O casal conversava, brincava com as garotas, se abraçava; vez ou outra, trocavam sussurros, mãos bobas e sorrisos.
O homem era meu marido. As meninas, minhas filhas.
A mulher...a mulher ...
Era eu. Se eu soubesse sorrir daquele jeito.


Lilian Amaral
Ele conseguia equilibrar uma dúzia de maçãs na palma de uma única mão. Equilibrava um cacho de bananas na ponta de um único pé. E na ponta do nariz, conseguia equilibrar até uma gigantesca melancia. Era para ele ter sido o maior equilibrista do mundo se não tivesse deixado cair seu coração pelo quitandeiro.

O moço que avistou a primeira goiaba madura do pomar pensou: isso é bão.
Uma hora antes, a lagarta que escapou do bico de um pardal distraído e caiu, exatamente, sobre essa primeira goiaba, pensou: isso é bão.
A moça que esperava o namorado no barzinho da esquina, ao sentir os resquícios de goiaba no beijo ardente do rapaz, pensou: isso é bão.
O namorado, que mais tarde, furtivo, foi se refastelar entre lençóis de outra rapariga, saboreou a amante como fruta madura, pensou: isso é bão.
Uma hora antes, ao anoitecer, o pardal distraído — que ainda estava de barriga vazia — abrigou-se de uma forte tempestade num vão do telhado da casa dessa mesma rapariga. Molhado e faminto o pássaro pensou: poderia ser pior.

Primeiro, tentou com a faca de sempre. Mas a ponta da faca já estava rombuda, e ela havia esquecido a pedra de fio na antiga casa. Olhou na gaveta da pia: somente facas de mesa com pontas arredondadas e uma tesoura de destrinchar frangos. Achou que a tesoura serviria. Mas não funcionou; a ponta da tesoura apenas afundava, formando um sulco branco, e não rompia a superfície. Ela precisava fazer muita força para afundar aquela ponta grossa. Então lembrou-se da tesoura de costura que guardava na lavanderia — essa seria perfeita.
Abrindo a tesoura em um “xis”, segurou firme na junção central que unia as duas partes do metal. E, como se fosse um punhal, cravou uma das pontas, enfim rompendo a superfície. Era um bom começo, pensou. Um começo preciso para um final limpo, como sempre.
Contudo, dessa vez não foi o que aconteceu. Uma semana depois de ter terminado sua lida na cozinha, o jornal da cidade estampava na primeira página a notícia de que a polícia, enfim, havia prendido J.S.M.D., suspeita de ter esquartejado seus três ex-maridos.
O prazer de devorar
Lilian Amaral
Quão aconchegante é encher a boca e cravar os dentes! Experenciar a sensação do calor morno. Sugar a umidade levemente salgada e amanteigada. Dentes contra dentes, desafiando a resistência saborosa, até restar somente o sabugo de milho, vazio, banguela de dentes.

Lilian Amaral
No rabicho da areia, a menina estende sua esteira.
Saltita alegre até a marola e dá início à brincadeira.
Captura em seu baldinho uma, duas, três ondinhas
que escapam por uma fresta.
- Não faz mal! – diz a si mesma, e ri, pois é “fuleira”.
Corre de volta à areia e põe-se a construir um castelo de princesa.
Assusta-se com o grito da mãe:
o mar, traquina, já lhe roubara a esteira.

UNI, DUNI, TÊ
Lilian Amaral
A flor lilás para a moça fugaz.
A flor vermelha para a moça pentelha.
A flor amarela para… Meu Deus!
Que beleza é aquela?

Lilian Amaral
Apareceu num susto e desapareceu num assombro.
Verde, tal qual o lago inerte do parque,
tinha a língua rosa, comprida e atrevida.
Atenta,
laçou um mosquito em pleno voo e,
com ligeiro volteio,
carregou-o garganta adentro.
Porém, arregalou os olhos, já muito saltados,
quando me viu a observá-la.
E, como se nunca tivesse estado ali,
desapareceu num fugaz piscar.
Seus Olhos
Lilian Amaral
Desejava escrever um poema. Um poema para ela. Começou por descrever seus cabelos, sua boca, seus olhos... Como eram seus olhos, afinal? Lembrou-se deles, espantados, quando ela o viu dentro da casa. Em seguida, ficaram agitados, quando ela procurava uma rota de fuga. Logo após, assombrados, quando ele a agarrou pelo pescoço. Finalmente, estagnados, um pouco antes de se fecharem para sempre. É isso, seus olhos eram de desespero. Mas desespero se escreve com ‘z’ ou ‘s’?

Lilian Amaral
Maria da Glória, ainda casadinha fresca, era Maria de dia e Glória à noite.
Maria cuidava do lar e zelava por Jurandir. Limpava, cozinhava e lavava. E, no final do dia, ganhava um beijo na testa e um “Obrigado, querida!”.
Glória cuidava da cama e dos prazeres de Jurandir. Massageava, acariciava e copulava ardentemente. E, no final da festa, além de ganhar o próprio êxtase, ela se aprazia em ouvir o esposo urrar, em gozo, seu nome: “Que glória, que glória!”.
Entediada com a marmota da Maria, Glória resolveu dar um fim na rival e ter Jurandir o dia todo só para si. E, como Maria era da Glória, e Glória não era de ninguém, livrar-se de Maria foi muito fácil.
O primeiro mês sem a rival foi de júbilo. Glória e Jurandir amaram-se noite e dia. No segundo mês, os festins começaram a perder o brilho e os sons, a intensidade. Jurandir já não exalava mais o perfume inebriante de outrora, nem a virilidade insaciável. No terceiro mês, o marido havia perdido peso e muitos fios de cabelo. Suas roupas estavam sujas e amarrotadas. Na cama, nem som emitia mais. No quarto mês, Jurandir comprou uma nova televisão, três vezes maior que a anterior, e passou a dormir na sala.
Foi então que Glória compreendeu que — sem Maria— não existiria glória!
.png)

Lilian Amaral
O aroma invadia a sala e se infiltrava por toda casa, como um rio que rompe as margens e toma para si toda paisagem. O aroma ganhava vida, não como mera lembrança daquela que já não estava mais na cozinha, mas como um abraço que, com afeto, dizia: ‘Tome um café, filho’.

Lilian Amaral
Bosch deu a largada no Jardim das delícias!
Van Gogh começou pelas batatas, legumes habituais nas receitas da avó. Cézanne preferiu maçãs e laranjas, ingredientes das compotas da mãe. Manet escolheu retratar um piquenique com os amigos, já que não morria de amores por seus familiares. Bacon, talvez, influenciado por seu sobrenome, pintou Figura com carne. O arrojado e competitivo Warhol, caçula dos artistas, vendeu a receita de sopa das tias para a Campbell, que as acondicionou em práticas latas. O júri, composto pelas Três bruxas de Fussli, que ressentidas por serem ineptas nas artes plásticas e culinárias, cuspiam ambiciosas profecias nos cangotes dos concorrentes, plantando a semente do sucesso a qualquer preço, tal qual fizeram com Macbeth.*
* Este texto é uma homenagem aos meus pintores prediletos e suas principais obras.

A queda era inevitável. Nem as preces ao anjo da guarda o salvariam. Escondeu-se atrás da porta, debaixo da cama, até dentro do guarda-roupa. Porém, quando a mãe o encontrou, tudo aconteceu muito rápido. Em um minuto ela estava fazendo um laço com uma linha de costura e no outro, com um puxão brusco, ela arrancava seu dente de leite que estava cai não cai há uma semana. Foi assim que uma janelinha indesejada se abriu em seu sorriso.
Por instinto, ele ocultava os fios. Robustos, bravios, semelhantes a uma cabeleira. Ao mundo, ele mostrava apenas pele e brilho. Quando lhe perguntavam o que tinha na cabeça, respondia: fios. E todos riam de sua calvície. Mas não riram mais quando, entediado, ele abriu a testa e expôs os fios.

Lilian Amaral
Sonhei que eu ostentava três cabeças. Achei bom. Assim, eu poderia dedicar uma à família, outra ao trabalho e a restante ao devaneio. Porém, os reveses começaram ao despertar. Diante do espelho da pia, não consegui aparar a barba, pentear os cabelos nem escovar os dentes, pois as cabeças competiam pelo espaço para mirar-se no reflexo. Na mesa do café da manhã, o conflito se acirrou. O trio de bocas disputou com voracidade meu pobre lanche. Tendo a da direita, com uma única abocanhada, devorado a orelha da cabeça central. Enquanto isso, a precipitada boca esquerda cuspia meu café quente com violência. Então, começaram as cabeçadas. Troadas de ossos se partindo ecoaram por toda a cozinha. Sangue e miolos mancharam a toalha de mesa. Acabei perdendo o apetite. Voltei a me virar nos lençóis, agora de bruços na cama, e sonhei que decepava minhas cabeças. Achei bom. Assim, pude dormir em paz.

A quietude da noite era como uma almofada macia para uma mente que gritava, exasperada, pela aspereza dos “tens que...” do dia.
Lilian Amaral

Lilian Amaral
Miauuu!
Voilààà! Multiplique o infinito por mil.
Sfrrr!
Sacou? É isso que vamos faturar com a tua receita secreta. Demais, não? Ulalá, dá até vontade de chorar de felicidade.
Snif! Snif!
Que Deus leve essas lágrimas pros infernos, que eu quero é comemorar...rs.
Hic! Hic! Hic!
Agora, cruze a pata dianteira direita com a traseira esquerda e dê três piruetas. Bravo! Bravo!
Burp!
Vai mais um golinho aí? Ahh! Você é um fofo.
Mmm...que tal atravessar esse balcão de ponta-cabeça se equilibrando nos bigodes?
Hic! Hic!
Vamos lá, você consegue. Mais um golinho e você consegue.
Ahh!
Eita, parado aí! Deixa que eu arremato esse copo.
Slurrp! Burp!
Acho que serei o gênio dos drinks, não é mesmo?
Epa! Epa! Você tá bem?
Vixiii! Falei pra se equilibrar nos bigodes, não se esborrachar de bruços, com as pernas pra cima.
Hic! Hic!
Meerrd# acho que f@de#
Vivo ou morto, vou cobri-lo com essas rosas. Vêê! Você desapareceu.
Hic! Hic!
Acho que também serei um mágico.
Puf! Puf!
Será que ela vai se orgulhar de mim?
Hic! Hic! Hic!
Veja isso:
Garrafas de absinto e vodca da sogra, secas.
Gato da sogra, alcoolizado.
Buquê de flores para o aniversário da sogra, desfeito.
Camisa xadrez, presente da sogra, babada.
Genro da sogra, desempregado, falido.
Hic! Hic! Burp!
Alguém aí sabe onde fica a saída?
Burrrp!

BLOG EM MANUTENÇÃO
O blog Agulhando Contos, com 43 meses de vida, já publicou 174 contos!
Para comemorar esta conquista, o blog ganhará novas páginas:
- As publicações de (e em) livros ganharão uma página.
- Os "teasers" (vídeos de divulgação) também ganharão espaço.